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Riscos na sucessão em empresas familiares

por Cláudia Maria Lessa

Família & Empresa - o que a princípio poderia parecer como uma sociedade perfeita, pode se transformar em um grande martírio com riscos e ameaças que muitas vezes culminam com a dissolução das duas partes. A difícil arte de administrar negócios familiares nem sempre é bem sucedida. Por mais hábil que sejam os gestores, surgirão no percurso sentimentos e emoções capazes de demolirem o mais sólido dos empreendimentos. Ao expor dramas familiares em conflitos por problemas sucessórios, a mídia realiza o trabalho de alertar empresários e gestores para a necessidade de monitorarem as relações antes que surjam os primeiros arrufos.

A intimidade das relações familiares permite que as diferenças aflorem com maior intensidade, fazendo emergir sentimentos acumulados durante a convivência doméstica, apesar de também serem encontrados nos demais membros das organizações. Ciúmes, inveja, amor e ódio são sentimentos não verbalizados no ambiente organizacional mas que comandam as ações e decidem o destino de muitas empresas.

A sociedade estimula a competição entre seus membros. Entretanto é na família onde a vaidade e competições afloram com vigor, alimentadas pelo cotidiano doméstico. Avós, mães, tias e demais parentes, mesmo sem participarem do negócio, emitem opiniões decisivas nas relações e desviam as empresas do seu eixo. Empregados de confiança aliados a membros da família também engrossam a lista dos que interferem, com a vantagem de gerenciarem o dia a dia da empresa, freqüentemente tornando-se porta-vozes e ingressando na disputa, tomando partido entre os familiares.

Inúmeros são os possíveis arranjos de facções nessa disputa. São pais que não acreditam na capacitação dos filhos à frente dos negócios, muitas vezes com razão. São filhos ansiosos que sofrem por desejarem inconscientemente a morte do pai tão querido. Irmãos e primos que não perdoam os ressentimentos de infância e partem para disputas truculentas e outros arranjos pouco favoráveis para a saúde organizacional.

Administradores profissionais chamados para gerir negócios em crise deparam-se com o trágico conflito entre o real e o imaginário. Disputas de afeto, desconfianças, medos falsos e legítimos ocupam o espaço de questões estratégicas de como enfrentar um mercado difícil e cada vez mais competitivo e com as finanças nem sempre ajustadas.

A separação de territórios prescrita por especialistas em gestão organizacional é uma terapêutica fora do alcance da Família & Empresa. Todos almoçam e jantam o trivial da organização. É necessário um esforço descomunal para cortar o cordão umbilical, vencer as grandes emoções e passar a operar com a razão na defesa da empresa. Dessa forma muitas empresas estão comprometendo a continuidade dos seus negócios, pois por maior que seja o empenho dos profissionais contratados é difícil reverter um quadro onde o comando foge da racionalidade.

Essa situação não é privilégio dos brasileiros. Há tempos, a empresa familiar vem sendo objeto de estudo na maioria dos países, alguns dos quais se apóiam em recursos jurídicos especiais destinados a preservar o patrimônio empresarial e manter a vida da empresa. Países que por terem sua economia ancorada em empresas de família, introduziram em sua cultura elementos decisivos onde o lugar e o papel de cada membro é pré-estabelecido, não existindo polêmicas sobre sucessão ou cronologia na ocupação do poder.

Infelizmente no Brasil fecham-se, divide-se ou vende-se a cada ano muitas empresas familiares pela incapacidade de estabelecer relações razoáveis em meio a um emaranhado de emoções. Patrimônios financeiros, imagens comerciais e marcas renomadas, conseguidos com grande esforço, privações e luta, desaparecem, deixando à deriva os membros da família, nem sempre preparados para enfrentarem o mercado de trabalho ou se acostumar a um padrão de vida mais modesto.

A precoce profissionalização da gestão, a introdução de normas, políticas e contratos são mecanismos que auxiliam a sobrevivência das empresas. Entretanto sem a conscientização e o firme comprometimento da família, a continuidade dos negócios estará constantemente ameaçada, bastando um pequeno desentendimento para desencadear problemas que comprometem a continuidade e o sucesso da empresa.

A preocupação com o futuro das organizações familiares deve começar antes mesmo que os herdeiros e possíveis sucessores estejam à porta da organização. A carreira deve ser programada com antecedência, considerando a vocação e as aspirações dos herdeiros frente às atividades do negócio. O cuidado em preservar a empresa e os seus negócios deve ser acompanhado da busca da integração e da felicidade dos membros da família, evitando dessa forma a dissolução de ambas – Família & Empresa.

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